Estudo aponta impacto de medicamentos GLP-1 no consumo mundial de alimentos
As chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos à base de agonistas de GLP-1 como semaglutida e tirzepatida, originalmente desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2, começam a provocar mudanças significativas nos hábitos alimentares e podem impactar diretamente o agronegócio mundial. Segundo relatório da Cogo Inteligência em Agronegócio, a tendência é de reconfiguração do consumo de alimentos, com efeitos relevantes nas cadeias produtivas globais. Somente nos Estados Unidos, mais de 18 milhões de pessoas já utilizam regularmente esses medicamentos.
A consultoria projeta crescimento de até 80% nas vendas até 2030, impulsionado pela quebra de patentes e maior acesso. A mudança ocorre porque os usuários passam a sentir maior saciedade e reduzem o consumo de calorias. Cerca de 56% adotam hábitos alimentares mais saudáveis após o início do tratamento. Nesse cenário, ganham espaço os alimentos mais proteicos e nutritivos. Também surgem os chamados “smart foods”, formulados para maior saciedade e densidade nutricional. O impacto tende a favorecer proteínas animais e derivados da soja. Para especialistas, a demanda global por milho e farelo de soja também deve crescer com a expansão das rações.
De acordo com o estudo, o Brasil aparece em posição estratégica por ser o maior exportador mundial de proteínas e ter cadeia produtiva estruturada para atender mais de 200 mercados. O consultor Carlos Cogo, sócio-diretor da Carlos Cogo, avalia que a transição de consumo pode elevar o valor agregado das exportações brasileiras. Ele destaca que o frango deve ser uma das proteínas mais beneficiadas pela mudança global de hábitos alimentares. Produtos como trigo, arroz e algumas leguminosas podem perder espaço relativo nesse novo padrão de consumo.
Já o milho tende a se beneficiar por integrar fortemente a cadeia de ração animal. Frutas, legumes e verduras também podem ganhar relevância frente aos ultraprocessados. Apesar da redução calórica, o relatório aponta que o agronegócio não deve encolher, mas se transformar. A tendência é de migração para alimentos com maior valor nutricional e proteico. Para a consultoria, isso pode ampliar o valor total do mercado global de alimentos. O efeito inicial deve ser mais forte na América do Norte e na Europa, com expansão posterior para outras regiões.