O Uruguai, país tradicionalmente associado à pecuária e conhecido pela excelência de sua carne bovina, enfrenta um dos maiores escândalos financeiros de sua história recente. Cerca de US$ 300 milhões desapareceram em um esquema de investimentos fraudulentos no setor de gado, afetando diretamente aproximadamente 6 mil investidores, majoritariamente da classe média urbana.
Três empresas uruguaias — Conexión Ganadera, República Ganadera e Grupo Larrarte — estão no centro da crise. As companhias ofereciam contratos de investimento em pecuária prometendo rentabilidades que superavam 10% ao ano, com foco em atrair investidores que buscavam segurança e estabilidade fora do setor financeiro tradicional. No entanto, auditorias revelaram um déficit expressivo de ativos, expondo a insolvência das empresas.
Modelo de negócio promissor que desmoronou
A Conexión Ganadera, criada em 1999, foi inicialmente idealizada para conectar recursos de investidores urbanos a pequenos pecuaristas. Durante mais de uma década, administrou volumes modestos de gado. Entretanto, impulsionada pelo boom das commodities e pelo aumento da demanda global por carne, a empresa cresceu exponencialmente, chegando a gerir 125 mil cabeças de gado nos últimos anos.
Ricardo Giovio, contador externo da Conexión Ganadera, afirmou que o projeto parecia viável inicialmente, mas a falta de liquidez se tornou o principal problema. “Provavelmente começou como um projeto sólido. Em algum momento, passou a acumular perdas e não conseguiu mais honrar seus compromissos financeiros”, declarou Giovio em conferência com investidores.
Em janeiro deste ano, a Conexión Ganadera revelou possuir US$ 158 milhões em ativos frente a um passivo de US$ 384 milhões. Após a declaração de falência, a Justiça uruguaia determinou o bloqueio de US$ 250 milhões em bens dos sócios fundadores das famílias Carrasco e Basso, responsáveis pela companhia.
Efeito dominó no setor
A situação não se restringe à Conexión Ganadera. O Grupo Larrarte entrou em concurso de credores em outubro de 2024, após um documentário televisivo expor depoimentos de investidores que alegavam ter sido enganados. Segundo relatório judicial, a companhia acumula um déficit de US$ 12,3 milhões.
Em novembro, foi a vez da República Ganadera solicitar proteção judicial para reestruturação, citando as perdas provocadas pela seca e pelo impacto negativo da crise envolvendo o Grupo Larrarte. Estima-se que os 1.450 investidores da República Ganadera tenham perdido US$ 70 milhões, além da maior parte do gado registrado em seus nomes.
Condições externas agravaram a crise
Diversos fatores contribuíram para o colapso financeiro dessas empresas. A seca severa de 2022-2023 trouxe prejuízos estimados em mais de US$ 1,7 bilhão ao setor agropecuário uruguaio, afetando diretamente a capacidade de pagamento das companhias. Além disso, as empresas vinham arrendando terras a custos elevados, enquanto o aumento das taxas de juros globais após a pandemia reduziu a atratividade dos investimentos ofertados.
Apesar da agressiva comercialização desses investimentos pecuários — muitas vezes apresentados como certificados de depósito ou títulos regulados —, o Banco Central do Uruguai afirmou que tais contratos estavam fora de sua competência regulatória. Desde 2018, ao menos 11 investigações foram conduzidas pela autoridade monetária, que chegou a ordenar que algumas empresas interrompessem a captação de recursos do público.
Pablo Rosselli, sócio da consultoria Exante, defende que as autoridades considerem novas regulamentações para investimentos desse tipo. “Essas empresas captavam recursos com instrumentos financeiros muito semelhantes a títulos de dívida”, observou Rosselli.
Nos próximos meses, caberá aos tribunais e advogados definir se as empresas em crise serão reestruturadas ou liquidadas para o ressarcimento parcial dos investidores. Enquanto isso, milhares de cabeças de gado seguem aguardando contabilização e cuidados, em um processo que promete ser longo e delicado.