O feijão sempre esteve na base da alimentação do brasileiro — antes mesmo de o território se tornar Brasil.
Já era consumido pelos nativos antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus, lembra a gastrônoma e historiadora Camila Landi.
Os povos originários costumavam comer feijão combinando-o com farinha de mandioca, aponta ela, que é professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Até os anos 1960, eram muitas as variedades que coexistiam e dividiam as preferências, tanto dos produtores quanto dos consumidores.
No Estado de São Paulo, por exemplo, eram comuns os feijões bico-de-ouro, rosinha, jalo, chumbinho, manteiga, mulatinho e roxinho.
Desde os anos 1970, contudo, há um tipo que é preponderante no prato do brasileiro: o feijão-carioca, ou o feijão-carioquinha. Trata-se de um grão marrom claro, rajado com manchas mais escuras.
Hoje ele é consumidor por 60% dos brasileiros, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O sucesso do feijão carioquinha é produto do trabalho da ciência brasileira, desenvolvido a partir de uma mutação que surgiu espontaneamente em uma plantação no interior de São Paulo.
De uma bem-vinda mutação ao trabalho da ciência
Um dos protagonistas dessa história é o engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida, considerado o “pai do carioquinha”, que morreu no último dia 2 de janeiro.
Em um artigo publicado na revista da Sociedade Brasileira de Recursos Genéticos em 2017, em coautoria com a engenheira agrônoma Elaine Bahia Wutke, pesquisadora no Instituto Agronômico, em Campinas, ele contou como o carioca acabou se tornando “a mais bem sucedida cultivar na história brasileira do feijão”.
“Cultivar” é o termo que designa as plantas desenvolvidas a partir de técnicas de melhoramento genético, geralmente com o objetivo de atingir características agronômicas superiores, como maior produtividade e maior resistência a pragas.
É diferente, por exemplo, da “variedade”, que designa um grupo com diferenças que se desenvolveram naturalmente dentro de uma mesma espécie.
Assim, o feijão-carioca é uma cultivar, não uma variedade.
De uma bem-vinda mutação ao trabalho da ciência
Um dos protagonistas dessa história é o engenheiro agrônomo Luiz D’Artagnan de Almeida, considerado o “pai do carioquinha”, que morreu no último dia 2 de janeiro.
Em um artigo publicado na revista da Sociedade Brasileira de Recursos Genéticos em 2017, em coautoria com a engenheira agrônoma Elaine Bahia Wutke, pesquisadora no Instituto Agronômico, em Campinas, ele contou como o carioca acabou se tornando “a mais bem sucedida cultivar na história brasileira do feijão”.
“Cultivar” é o termo que designa as plantas desenvolvidas a partir de técnicas de melhoramento genético, geralmente com o objetivo de atingir características agronômicas superiores, como maior produtividade e maior resistência a pragas.
É diferente, por exemplo, da “variedade”, que designa um grupo com diferenças que se desenvolveram naturalmente dentro de uma mesma espécie.
Assim, o feijão-carioca é uma cultivar, não uma variedade.
“Muitas pessoas acreditam que surgiu por meio de modificações genéticas, em laboratório. Isso não é verdade”, pontua ele à BBC News Brasil.
A seleção massal realizada por Antunes é um método de melhoramento genético mais simples, feito a partir da colheita e mistura das sementes de plantas diferentes.
Em sua casa, o feijão foi preparado e a família aprovou. O caldo parecia consistente e o aroma, atrativo.
Três anos depois, Antunes resolveu separar um saco de 30 quilos desse feijão para análise. O material foi encaminhado ao Instituto Agronômico, em Campinas, órgão de pesquisa e desenvolvimento do governo estadual paulista.
Foi quando, como pontua o artigo, a amostra foi “oficialmente catalogada” sob a denominação carioca — e o número I-38700.
Luiz D’Artagnan de Almeida foi então designado como “responsável direto pelas avaliações”, “pela multiplicação dessa cultivar” e para “seu futuro lançamento”.
Havia, porém, um receio: o preconceito dos consumidores. Naquela época, era estranho um feijão que não tivesse coloração homogênea. Poderia parecer algo ruim, estragado.
Era preciso ressaltar os prós, para que os contras — de fundo meramente estético ou mesmo de hábito — fossem abafados.
D’Artagnan de Almeida e sua equipe não só fizeram pesquisas. Dedicaram-se a divulgar os resultados. Viraram embaixadores do novo feijão.
A primeira apresentação pública da variedade ocorreu em agosto de 1968, em encontro técnico realizado em Serra Negra.
“Os pesquisadores divulgaram os animadores resultados que comprovavam a produtividade superior, a resistência às doenças prevalentes na época e as qualidades culinárias desse feijão”, pontua o texto de Almeida.
Em estudo publicado em 1971, foi constatado que o carioquinha rendia muito mais do que as outras variedades. Em média, produzia 1.670 quilos por hectare, enquanto bico-de-ouro e rosinha ficavam na casa dos 1.280 quilos.
Mas se as vantagens para o produto pareciam inquestionáveis, ainda havia a barreira da preferência do consumidor.
Em ata de reunião ocorrida na Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo em outubro daquele ano, ficou registrado que era preciso implementar um plano de multiplicação das novas sementes — mas havia o problema: “a premissa de sua não aceitação”.
No artigo, o agrônomo conta que “era bastante difícil a introdução e oferta de cultivares com sementes cujo tegumento fosse de coloração pintada ou rajada, como no caso do carioca”.
D’Artagnan de Almeida era um dos que advogavam para o fato de que era preciso também ressaltar as qualidades alimentícias do produto — e não só suas vantagens produtivas.
Fonte: G1