Região Centro-Oeste, 5 de junho de 2026

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Por que o Brasil, 9º maior produtor de morango do mundo, ainda precisa importar a fruta?

Consumo per capita é quase 65 vezes menor que o dos EUA; novas variedades e tecnologia prometem transformar a cadeia produtiva
Foto: divulgação - Embrapa/Francisco Lima

O Brasil produz morango em escala suficiente para figurar entre os dez maiores produtores mundiais. Mas não o suficiente para saciar o próprio mercado interno. Em 2023, o país colheu 187,8 mil toneladas da fruta, segundo dados da Embrapa, com consumo per capita de apenas 925 gramas por brasileiro ao ano. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos o morango representa 60% da cesta de frutas. E no Brasil, apenas 3%.

O diagnóstico é do engenheiro agrônomo e consultor Ronaldo Herculano de Lima, especialista em cultivo de morango, que participou do Podcast Ascenza. Segundo ele, o setor vive um momento de transição importante e deve passar por mudanças expressivas nos próximos três a cinco anos, impulsionadas pela chegada de novas variedades ao mercado nacional. “O Brasil ainda não produz o que o mercado interno demanda. Os produtores trabalham muito com variedades antigas, mas novos cultivares estão surgindo, com mais sabor e um pós-colheita mais resistente”, diz o especialista

Variedades antigas dominam, mas mudança está a caminho

Hoje, cerca de 85% das lavouras de morango no Brasil são ocupadas pela variedade San Andreas, a mais resistente, mas não a mais doce. A Camarosa aparece em produções de Brasília, e a Albion, mais saborosa e mais sensível, começa a ganhar espaço entre produtores que apostam em qualidade.

De acordo com Lima, novas variedades importadas de viveiros do Chile, da Espanha e da Flórida devem chegar ao Brasil e reconfigurar o mapa da produção nos próximos anos. A referência internacional para o produtor brasileiro são o Sul da Espanha e o Sul da Itália, regiões com características climáticas relativamente próximas às de algumas áreas produtoras nacionais.

Os maiores produtores mundiais de morango em 2023, segundo dados da FAOSTAT, banco de dados da FAO/ONU, são: China, Estados Unidos, Egito, Turquia, México, Espanha, Rússia, Polônia e Brasil, nessa ordem.

Mudas piratas: um risco escondido nas lavouras

Um dos maiores gargalos da produção nacional é o uso disseminado de mudas não certificadas. Estima-se que cerca de 80% das mudas plantadas no Brasil sejam chamadas de “piratas”. Elas são replicadas e comercializadas pelos próprios produtores, sem controle de sanidade ou genética.

“Essas mudas produzem normalmente, mas não há garantias em relação a riscos. Sanidade e genética são muito importantes para obter maior e melhor produtividade”, alerta Lima. A adoção de cultivares certificados, associada à diversificação de variedades dentro da mesma lavoura, é apontada como caminho para aumentar a competitividade do produtor brasileiro.

Colheita antecipada prejudica o sabor

O morango ideal é doce, grande, firme e bem vermelho, mas esse padrão raramente chega à mesa do consumidor brasileiro. A principal razão é a colheita precoce: no Brasil, a média de maturação no momento da colheita é de 50%. Quando a fruta atinge 80% ou 85% de maturação, o sabor muda completamente.

“Há muito trabalho a ser feito e há muito espaço para crescer”, diz Lima. Para ele, o investimento em qualidade “é um caminho sem volta”: com variedades mais doces e manejos adequados, o consumo nacional pode crescer exponencialmente. E o Brasil pode até se tornar exportador da fruta, desde que resolva primeiro a logística e amplie o mercado interno.

“Antes de exportar, ainda há muito para crescer no mercado interno. É preciso arrumar a casa, melhorar a qualidade e ampliar o consumo. Área e mão de obra são grandes desafios do produtor”, diz Ronaldo Lima

A revolução semi-hidropônica

A produção de morango no Brasil passou por uma transformação significativa nas últimas duas décadas. Há 20 anos, o cultivo era exclusivamente no solo, sem cobertura ou irrigação por gotejamento. Hoje, cerca de 40% da produção nacional já é feita em sistema semi-hidropônico, uma técnica que utiliza substratos em estufas e permite maior controle das condições de cultivo.

O modelo se expandiu especialmente no Sul do país, onde é predominante. No Sudeste, a maioria dos produtores ainda usa o plantio convencional no solo. A semi-hidroponia permite maior densidade de plantas, até 80 mil por hectare, contra 50 mil no solo, e melhor pós-colheita. Embora exija mais atenção nutricional e investimento inicial entre R$ 15 e R$ 25 por planta.

No cultivo convencional, o investimento médio é de R$ 14 por planta, com custo operacional de R$ 7 a R$ 8. Em ambos os sistemas, o retorno do investimento ocorre, em média, em três anos.

Morango no Brasil: do Ceará ao Rio Grande do Sul

Com o avanço das tecnologias( irrigação por gotejamento, túneis de proteção contra chuva, estufas e novas variedades), o morango chegou a regiões que não eram tradicionais na produção da fruta. Metade da produção nacional ainda se concentra em São Paulo e Minas Gerais, mas há produtores ativos no Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, norte da Bahia, serra fluminense e até na serra do Ceará.

“Com as tecnologias disponíveis e novas variedades, é possível produzir o ano todo no Brasil”, afirma o especialista.

O estigma dos agrotóxicos e a realidade atual

Nos anos 2010, o morango ficou conhecido como a fruta com maior índice de resíduos de defensivos agrícolas, após análises divulgadas pela Anvisa. Esse estigma persiste no imaginário do consumidor, mas a realidade das lavouras mudou.

“Hoje muitos produtores não usam defensivos em suas lavouras de morango e, quando necessário, o uso é pontual. Há muitos produtos registrados para a cultura, de baixa toxicidade, inclusive biológicos”, afirma Lima. A engenheira agrônoma Patrícia Cesarino, gerente da Ascenza Brasil, reforça o ponto: “O produtor está cada vez mais focado em qualidade e consciência. Mas essa informação não chega ao consumidor”.

Para Lima, maior transparência sobre os processos produtivos poderia ampliar significativamente o consumo. “O brasileiro pode consumir morango sem medo”, conclui.

Pragas, polinização e manejo integrado

As principais ameaças às lavouras de morango no Brasil são o ácaro, o oídio, o fungus gnats (larva que ataca o substrato) e a mosca da fruta. Mais recentemente, o besouro prateado tem causado problemas em diversas regiões, com menor incidência no Sul.

Foto Divulgação Ascenza

O manejo integrado é apontado como estratégia-chave: identificar pragas, criar armadilhas e agir no momento certo. Uma prática ainda pouco explorada no Brasil é a polinização por abelhas, que pode ampliar a produtividade em até 30%. O desafio é que as abelhas africanas, as mais eficientes na polinização e as mais comuns no país possuem ferrão, o que exige maior proteção para os trabalhadores.

Planejamento: a palavra-chave para quem quer entrar no setor

Para quem deseja iniciar na produção de morango, Lima é categórico: o segredo está no planejamento. Variedades, diversificação, época de plantio, clima, manejo, qualidade na colheita e cuidados no pós-colheita, tudo exige organização prévia.

“Uma hora do morango fora da câmara fria é um dia a menos de vida na prateleira”, avisa. A colheita deve acontecer nos horários mais frescos do dia; as cestas não podem ficar sobrecarregadas; o manuseio precisa ser delicado. Com embalagem adequada, o morango pode durar até 15 dias na prateleira, contra apenas três dias em embalagens comuns.

Os números recentes mostram que o setor está em expansão: em dez anos, o Brasil aumentou em 37% a área plantada de morango e ampliou a produção em 68%, saindo de 3,5 mil hectares e 112 mil toneladas em 2014 para 4,8 mil hectares e 187,8 mil toneladas em 2023, segundo a Embrapa. A próxima virada, segundo os especialistas, pode ser ainda maior.

Fonte: Agro em Campo

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