Região Centro-Oeste, 5 de junho de 2026

O Portal de Notícias do Agronegócio

Como o cacau cabruca pode salvar a Mata Atlântica  e triplicar a renda de 3 mil famílias

Iniciativa financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente quer restaurar 12 mil hectares, mitigar 3,72 milhões de toneladas de gases e aumentar em 30% a renda das famílias produtoras
Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar

Um bioma que já perdeu 87,6% de sua cobertura original acaba de ganhar um reforço estratégico de escala global. Ilhéus, no sul da Bahia, sediou o lançamento do projeto “Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável das paisagens agroflorestais cacaueiras”. A iniciativa aposta no cultivo tradicional do cacau cabruca para frear o desmatamento, restaurar a biodiversidade e melhorar a renda de milhares de famílias produtoras.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), executa o projeto com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) financia a iniciativa, e a Sitawi Finanças do Bem atua como parceira operacional.

O que é o sistema cabruca e por que ele importa

A cabruca é uma técnica secular de cultivo do cacau sob o dossel de árvores nativas da Mata Atlântica. Em vez de desmatar para plantar, o produtor mantém a floresta em pé e introduz o cacaueiro à sua sombra. O resultado é um sistema que forma corredores biológicos, regula o ciclo hídrico local e aumenta a resiliência ecológica da região. Tudo isso enquanto gera renda.

“A Mata Atlântica é um bioma de importância mundial. O projeto será um exemplo notável de conservação produtiva, onde a agricultura sustentável coexiste com a preservação de espécies nativas e endêmicas”, afirma Jorge Meza, representante da FAO no Brasil.

Metas ambiciosas: floresta, clima e economia

O projeto estabelece objetivos concretos para os próximos anos: restaurar 12.000 hectares de cacau em sistema cabruca; melhorar a gestão de mais de 203 mil hectares de áreas protegidas, incluindo as APAs Pratigi e Baía de Camamu; e mitigar 3,72 milhões de toneladas de gases de efeito estufa.

Imagem gerada por IA

No campo econômico, a iniciativa quer triplicar a produtividade média do cacau cabruca e elevar em 30% a renda das famílias beneficiárias, por meio de assistência técnica e acesso a mercados de cacau premium.

Três mil produtores organizados nos consórcios CIAPRA, CIMA e CDS-LS participam do projeto. O compromisso é que ao menos 50% dos beneficiários sejam mulheres e jovens.

Tecnologia, governança e formação

Além das ações de campo, o projeto propõe revisão de marcos legais e novos mecanismos de política pública para o manejo sustentável em uma escala de 1,6 milhão de hectares. Garantindo ao produtor rural retorno econômico sem abrir mão da conservação florestal.

Entre as inovações planejadas estão o uso de blockchain para rastreabilidade total do cacau, a criação da Escola do Cacau para formação de técnicos e produtores, e um Centro de Inteligência Territorial (CIT) para monitoramento da paisagem e da biodiversidade em tempo real. Os produtores também ganham acesso a um modelo de crédito rural sustentável, o CRA Sustentável, e a redes de comercialização nacionais e internacionais.

“O que estamos lançando na Bahia vai além de um projeto ambiental ou produtivo. É um modelo concreto de inovação no campo”, diz Thiago Guedes, diretor da Ceplac. “Estamos posicionando a cacauicultura agroflorestal como um ativo estratégico para o futuro da agricultura mundial.”

Para quem vive da terra, o significado é direto. “Trazer o processo de transição agroecológica para esse espaço de produção permite produzir uma amêndoa de cacau melhor, com mais qualidade, agregando valor ao produto para que as famílias possam melhorar sua qualidade de vida”, conta Luciano Ferreira, assentado da reforma agrária e produtor de cacau.

Fonte: Agro em Campo

Suas preferências de cookies

Usamos cookies para otimizar nosso site e coletar estatísticas de uso.