As mudanças climáticas têm contribuído para o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos, como secas prolongadas, ondas de calor e chuvas intensas. Essas condições representam um risco crescente para a agropecuária brasileira, prejudicando a produtividade dos sistemas de produção.
Nas previsões climáticas mais recentes é apontada uma probabilidade superior a 80% de ocorrência de um fenômeno El Niño durante o segundo semestre de 2026, podendo permanecer até o começo do ano de 2027. Segundo Nota Técnica conjunta do INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM, haverá a ocorrência deste fenômeno com intensidade considerada de moderada a forte. Para o Centro-Oeste brasileiro, as previsões indicam aumento das temperaturas médias e maior irregularidade na distribuição das chuvas.

Figura 01. Anomalias térmicas da superfície oceânica registradas na primeira semana de junho, indicando o desenvolvimento do El Niño 2026. Fonte: INMET (2026).
Essas condições podem afetar diretamente a produção pecuária e a agricultura, sobretudo em sistemas convencionais. Em contrapartida, sistemas integrados de produção têm demonstrado maior capacidade de adaptação às variações climáticas, reduzindo a vulnerabilidade.
Por que sistemas convencionais são mais vulneráveis?
No caso da agricultura, sistemas simplificados, como a sucessão soja-milho, dependem fortemente das condições climáticas favoráveis para expressar seu potencial produtivo. Além disso, a menor diversificação vegetal reduz o aporte de resíduos orgânicos e limita os benefícios associados à melhoria da estrutura do solo.
Outro aspecto importante refere-se à proteção do solo. Após a colheita do milho safrinha, é comum que a área permaneça por alguns meses com baixa cobertura vegetal. Isso promove maior exposição do solo às intempéries, resultando em aumento da temperatura superficial, maior perda de umidade e redução da atividade biológica do solo.
Na pecuária, essa vulnerabilidade torna-se mais evidente em sistemas exclusivamente a pasto, nos quais a produção animal está diretamente vinculada ao crescimento das forrageiras. Quando a combinação entre altas temperaturas e irregularidade hídrica reduz a disponibilidade de pasto, toda a cadeia produtiva é afetada. A limitação hídrica reduz o crescimento das forrageiras e a disponibilidade de forragem, diminuindo a capacidade de suporte das pastagens e obrigando os produtores a reduzir a taxa de lotação.
Integração Pecuária-Floresta: uma alternativa para propriedades exclusivamente pecuárias
Embora os sistemas integrados de produção agropecuária (SIPA) sejam frequentemente associados à produção de grãos, a adoção de sistemas integrados não depende necessariamente da presença de culturas agrícolas. Para propriedades dedicadas exclusivamente à bovinocultura, a Integração Pecuária-Floresta (IPF), ou sistema silvipastoril, constitui uma alternativa viável para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos frente aos desafios climáticos.
Sob a perspectiva da adaptação climática, o principal benefício da IPF está relacionado à modificação do microclima. O sombreamento reduz a incidência direta da radiação solar sobre os animais, diminuindo a carga térmica ambiental e favorecendo o conforto térmico. Estudos conduzidos no Cerrado brasileiro demonstram que bovinos mantidos em sistemas silvipastoris apresentam menores temperaturas corporais, menor frequência respiratória e menores sinais de estresse térmico quando comparados a animais mantidos em pastagens sem sombra, especialmente durante períodos de calor intenso.
AUTORES
Autora: Beatriz Santana Estevão; Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia pelo Instituto Federal Goiano, Rio Verde-GO.
Segundo autor: Marco Antônio Pereira da Silva; Docente do Instituto Federal Goiano; Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás.
Terceiro autor: Tiago do Prado Paim; Pesquisador, EMBRAPA Pesca e Aquicultura; Doutor em Ciências Animais pela Universidade de Brasília.
Quarto autor: Patrick Bezerra Fernandes; Pesquisador, Centro Tecnológico COMIGO (CTC) – Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano; Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.