O Brasil chega a 2025 com um rebanho estimado em 234,7 milhões de cabeças e exportações de carne bovina próximas de 3,75 milhões de toneladas, consolidando-se entre os maiores produtores e exportadores do mundo. Para sustentar essa posição, a sanidade animal permanece como um dos pilares da competitividade da pecuária brasileira.
O médico veterinário Anderson Santos Galvão lembra que o perfil do produtor mudou. “Novas gerações estão chegando e as mulheres têm assumido papel cada vez mais ativo na gestão das fazendas. Elas trazem organização, atenção aos dados e uma visão mais racional nas decisões”, afirmou em entrevista ao Agro e Prosa.
Com esse novo olhar, a pecuária brasileira avança para um modelo mais profissional, intensivo e sustentável, no qual o calendário sanitário deixa de ser uma obrigação burocrática e passa a integrar a gestão estratégica da propriedade.
Desobrigação não é sinônimo de segurança
A Portaria nº 564/2025, publicada pela Agrodefesa em 13 de outubro, tornou opcional a vacinação contra a raiva em 119 municípios goianos. A medida, segundo Galvão, exige cautela. “A retirada da obrigatoriedade não significa que o risco acabou. Este ano tivemos focos da doença e captura de morcegos hematófagos em municípios como Jataí, Cachoeira Alta e Itajá. O vírus ainda circula na região”, alertou.
O veterinário reforça que a decisão de vacinar deve se basear em cálculo econômico e bom senso. “Uma dose custa em torno de R$ 1,50 por animal. Já o valor médio de uma cabeça de gado chega a R$ 3 mil. O custo da prevenção é mínimo diante do risco de perda.”
Para ele, a comparação é direta: vacinar é como pagar um seguro. “Ninguém faz seguro do carro esperando batê-lo. Da mesma forma, o produtor vacina para não perder. É um investimento de proteção patrimonial”, explicou.
Raiva bovina: letalidade e sintomas
A raiva dos herbívoros é uma doença incurável e de evolução rápida. Após a infecção — causada pela mordida de morcegos hematófagos contaminados — o animal apresenta sintomas como prostração, salivação excessiva, movimentos de pedalagem e comportamento agressivo. “Dependendo da gravidade, a morte pode ocorrer entre um e sete dias. Não há tratamento. A única defesa é a vacinação preventiva”, destacou Galvão.
O médico veterinário acrescenta que o produtor deve estar atento aos sinais e acionar a Agrodefesa sempre que houver suspeita. “A raiva é uma doença de notificação compulsória. O comunicado não traz prejuízo comercial. Ao contrário, ajuda o órgão a mapear focos e agir rapidamente”, explicou.
Novembro: mês de manejo e prevenção
O mês de novembro é tradicionalmente um período de manejo intensivo nas fazendas. Além da contagem obrigatória do rebanho no sistema SIDAGO, os produtores podem aproveitar o momento para vermifugar, vacinar e revisar o calendário sanitário.
“É o mês da virada de estação — da seca para o período das águas. O animal passa por estresse fisiológico e o risco de parasitas aumenta. Por isso, a vermifugação é essencial”, explicou o veterinário.
Além da raiva, ele recomenda vacinar contra as clostridioses, um grupo de doenças causadas por bactérias que não têm cura. “São vacinas que protegem contra até dez enfermidades graves e garantem tranquilidade ao produtor”, completou.
Saúde única e responsabilidade compartilhada
Galvão lembra que a raiva é uma zoonose, ou seja, pode ser transmitida ao ser humano. “Vacinar o rebanho é também uma forma de proteger as pessoas e o meio ambiente. Cuidar da saúde animal é cuidar da saúde pública.”
Ele reforçou ainda que o controle de morcegos deve ser feito apenas por equipes técnicas da Agrodefesa. “O morcego faz parte do equilíbrio ambiental. Não se trata de eliminar, mas de monitorar e conter focos sob orientação profissional.”
Vacinar é preservar o futuro
A mensagem final do veterinário é objetiva: a prevenção não deve ser vista como gasto, e sim como segurança para o patrimônio e para o futuro da atividade. “A sanidade representa menos de 1% do custo total de uma fazenda. O produtor que investe em pastagem, genética e nutrição não pode economizar naquilo que garante a vida do rebanho”, afirmou.
Com a pecuária brasileira cada vez mais conectada à exigência dos mercados internacionais, manter o calendário de vacinação em dia é mais do que um ato de responsabilidade técnica: é uma demonstração de comprometimento com a qualidade, a sustentabilidade e a imagem do agro brasileiro no mundo.
Fonte: Agro&Prosa