A China ultrapassou o Brasil e assumiu a liderança mundial na produção de tambaqui, transformando o peixe amazônico em mais uma commodity da aquicultura global. O país asiático aplicou ao Colossoma macropomum o mesmo modelo industrial que já o consolidou como maior produtor mundial de proteína aquática: planejamento de longo prazo, forte apoio estatal, integração logística e produção em larga escala.
A mudança ocorreu de forma silenciosa nos últimos anos, reposicionando a espécie dentro das cadeias globais de proteína animal. O Brasil produziu 113 mil toneladas de tambaqui em 2024, representando um crescimento de 3,92% em relação ao ano anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A ascensão chinesa contrasta com a trajetória brasileira. Enquanto o país sul-americano concentra a produção no consumo interno e em feiras regionais, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a China estruturou cadeias completas que incluem processamento industrial de filés, produtos congelados e logística voltada à exportação contínua.
Características biológicas atraem mercado internacional
O sucesso do tambaqui fora do Brasil está diretamente ligado às suas características biológicas. O peixe apresenta crescimento rápido, rusticidade e excelente conversão alimentar, fatores essenciais para sistemas de aquicultura intensiva. Além disso, a espécie tolera variações ambientais, adapta-se bem a altas densidades de cultivo e possui carne branca de sabor suave, com ampla aceitação do consumidor.
Essas características despertaram o interesse de países com forte tradição em aquicultura industrial. Para a China, que busca espécies eficientes para atender seu gigantesco mercado interno e manter fluxo constante de exportações, o tambaqui encaixou-se de forma quase ideal no modelo produtivo.
Modelo industrial chinês versus produção brasileira
A entrada do tambaqui na matriz aquícola chinesa ocorreu por meio de programas controlados de introdução, adaptação genética e aprimoramento dos sistemas de cultivo. Em pouco tempo, a espécie passou a ser criada em tanques escavados, estruturas semi-intensivas e sistemas altamente tecnificados, com controle rigoroso de alimentação, sanidade e processamento pós-abate.
O diferencial chinês está na escala produtiva, na logística integrada, no processamento com valor agregado e na capacidade de manter fornecimento estável ao mercado global. No Brasil, o tambaqui é ainda majoritariamente associado ao consumo fresco, comercializado em feiras locais e mercados regionais, o que limita volumes e padronização para exportação.

Dados de organismos internacionais como a FAO indicam que a expansão da aquicultura chinesa ocorre de forma consistente desde os anos 2000, com forte apoio estatal, investimentos em pesquisa aplicada e políticas voltadas à segurança alimentar.
Brasil mantém protagonismo científico e genético
Mesmo tendo sido superado em volume de produção, o Brasil continua sendo a principal referência mundial em genética, pesquisa e desenvolvimento tecnológico do tambaqui. O país concentra os principais bancos genéticos da espécie e domina tecnologias de reprodução, larvicultura e engorda em clima tropical.
Universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras foram responsáveis por avanços decisivos nessas áreas, muitos deles posteriormente adotados em outros países. Na prática, parte relevante do conhecimento aplicado hoje na Ásia tem origem em pesquisas conduzidas no território brasileiro.
Produção nacional em números
O IBGE apurou que o volume total de peixes de água doce para consumo alcançou, em 2024, a marca de 724,8 mil toneladas. Desse total, a tilápia contribuiu com 499 mil toneladas (68,89%) e os peixes redondos (tambaqui, pacu, pirapitinga e seus híbridos) contribuíram com 177 mil toneladas (24,4%).
A Região Norte se mantém como principal produtora, respondendo por 62,3% do total de peixes redondos, com destaque para Rondônia, que concentra 33,5% da produção nacional. No estado, o tambaqui representa 93,8% do pescado cultivado.
O Mato Grosso aparece em segundo lugar com 16,3% da produção, onde predominam o tambacu e a tambatinga. O Maranhão responde por 12,3% da produção nacional, com divisão equilibrada entre o tambaqui e os híbridos.
Desafios para o Brasil
A mudança no eixo da produção mundial de tambaqui evidencia um movimento maior da aquicultura contemporânea:. Quem domina escala, logística e industrialização lidera o mercado, mesmo quando a espécie tem origem em outro país.
Enquanto a China transforma o tambaqui em uma proteína global, o Brasil enfrenta o desafio de converter seu protagonismo científico em maior competitividade industrial, agregando valor, ampliando escala e fortalecendo sua presença internacional.

Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, o tambaqui é a espécie nativa mais produzida no país por seu rápido crescimento e sua ótima qualidade. O peixe que nasceu na Amazônia agora circula pelo mundo. E o futuro dessa cadeia depende de como o país de origem irá se posicionar nesse novo cenário globalizado.\
A produção aquícola de tambaqui aumentou de 13 mil toneladas em 2000 para 142 mil toneladas em 2016, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A FAO destaca que existe enorme potencial para o cultivo da espécie em grande e pequena escala.
A aquicultura mundial tem crescido de forma consistente. A produção global de pesca e aquicultura em 2022 atingiu 223,2 milhões de toneladas, um aumento de 4,4% em relação a 2020. Pela primeira vez na história, a aquicultura de animais aquáticos superou a pesca extrativa em volume de produção.
Fonte: Agro em Campo