A pequena vila Lauro Sodré, à beira do rio Mocajuba, no nordeste do Pará, vive em grande parte do cultivo de ostras. Com pouco mais de 1.200 habitantes, a comunidade se tornou uma referência na região por conseguir produzir o marisco de forma sustentável, usando garrafas pet. O mais curioso? O método foi ensinado por um cubano.
A técnica usa recortes de garrafas pet sobrepostos como coletores para cultivar as chamadas “sementes” da ostra Crassostrea brasiliana, natural da região. Os pedaços de plástico são colocados em áreas de manguezal do rio por 45 dias para que os mariscos sejam coletados, para, depois, serem separados por tamanho e colocados em depósitos, os “travesseiros”, onde ficam por nove meses até chegarem ao tamanho comercial.
A técnica, ensinada pelo biólogo Leonardo Zayas, trazido ao Brasil pelo Sebrae no início dos anos 2000, alçou o aproveitamento das “sementes” de 50% para 90%, se comparados às formas de cultivo mais tradicionais.
“Nós só fazemos o manejo. O resto, tudo é feito pela natureza. O que [o método] nos ajudou é que, desde então, temos muito menos perdas e a produção aumentou”, disse aquicultor José da Silva Galvão, um dos fundadores da Aquavila (Associação dos Aquicultores da Vila Lauro Sodré).
“Quando ele [Zayas] chegou, as ostras estavam morrendo [por causa da baixa efetividade de produção]. Passamos cinco anos de capacitação para aprender essa técnica que não tinha do estado do Pará”, conta Galvão. Depois de uma temporada no Brasil, o biólogo voltou para Cuba, onde cultiva vieiras.
Hoje, a produção sustenta quase toda a comunidade, que faz parte do município de Curuçá (PA), cerca de 130 km a nordeste de Belém. Só a Aquavila concentra 10 famílias. As ostras são vendidas por tamanho: a dúzia das menores, baby, sai por R$ 20; da média, por R$ 25; e da master, por R$ 35.
O cultivo das sementes é feito no verão amazônico, entre julho e janeiro, por causa da água. Neste período, o rio Mocajuba, que deságua no oceano Atlântico, quilômetros acima da comunidade, está com a água mais salgada. A água doce é menos propícia para o desenvolvimento do molusco.

Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL.
Local de preservação sofre com a mudança do clima
O município faz parte da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá, instituída em 2002. Gerido pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a área de 37 mil hectares compreende outras três cidades e dezenas de vilas que, como Lauro Sodré, vivem em especial do extrativismo sustentável.
“Se não fosse protegido, não existiríamos mais”, afirma Galvão. Entre os principais problemas, o aquicultor cita especulação imobiliária, pesca predatória —que, segundo ele, muitas vezes consegue registro sob a desculpa de “pesca esportiva”— e ameaças externas, como o aumento de mercúrio da água por causa da mineração ilegal e o receio de vazamento de petróleo com a recém-autorizada exploração na Margem Equatorial.
Ainda assim, os pescadores dizem sentir os efeitos da crise do clima na produção. “A gente tem sentido cada vez mais a mudança climática. O mar está se alavancando muito acima do normal e cada vez mais. Isso atrapalha a produção tanto pelo tempo que a ostra fica ou não.
Fonte: Uol