Região Centro-Oeste, 5 de junho de 2026

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Bactérias prometem revolucionar o cultivo de pimenta-do-reino

Linhagens identificadas pela Embrapa estimulam enraizamento de mudas e abrem caminho para bioinsumos na agricultura familiar
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

Pesquisadores brasileiros identificaram duas bactérias presentes naturalmente no interior das plantas com potencial para transformar o cultivo da pimenta-do-reino, a segunda especiaria mais produzida no Brasil, com valor de mercado que saltou de R$ 1,65 bilhão para R$ 3,67 bilhões em apenas um ano.

Cacho de pimenta-do-reino. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

O estudo, conduzido pela Embrapa em parceria com cinco universidades federais, mostra que as linhagens Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11 estimulam o crescimento da planta e melhoram o enraizamento das estacas usadas na produção de mudas.

Como as bactérias atuam

As chamadas bactérias endofíticas habitam os tecidos internos das plantas sem causar doenças. As linhagens identificadas produzem ácido indolacético (AIA) — hormônio que regula o crescimento vegetal — e sideróforos, compostos que capturam ferro no solo e o tornam mais acessível às raízes. Esse mecanismo explica os resultados expressivos obtidos nos experimentos realizados entre 2023 e 2024 na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém (PA).

Estacas da variedade Singapura de pimenteira-do-reino submetidas à solução com Priestia sp. T2.2 cresceram até 75% mais em altura e registraram aumento de 136% na massa seca da parte aérea em relação às plantas de controle. Já a Lysinibacillus sp. C5.11 provocou um salto de 333% na massa seca das raízes. Uma terceira linhagem avaliada, Bacillus sp. C1.4, também apresentou efeitos positivos na parte aérea, porém em menor escala.

“Esses resultados apontam para plantas com raízes mais vigorosas, ramificadas e pesadas. Isso é fundamental para a absorção de nutrientes do solo e, consequentemente, maior crescimento da planta, maior quantidade de galhos e folhas, mais fotossíntese, mais sanidade, maior longevidade dos pimentais e maior produtividade. É um ciclo benéfico de desenvolvimento”, afirma Oriel Lemos, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

O gargalo das mudas na agricultura familiar

A estaquia, técnica de reprodução que consiste em retirar pequenos galhos da planta-mãe e enraizá-los para gerar novas mudas, é o método preferido dos produtores porque preserva as características genéticas da matriz e reduz o tempo até a frutificação. O problema é que o baixo índice de pegamento das raízes compromete a qualidade das mudas e, por consequência, a produtividade das lavouras.

“Um pimental produtivo se inicia com uma muda sadia. E uma das dificuldades dos produtores é ter estacas que tenham um enraizamento efetivo para a produção das mudas. Há ainda muitas perdas nesse processo. Então, essa descoberta revela o potencial de obtermos um bioinsumo que traga mais segurança aos pequenos produtores para a implantação ou ampliação de pimentais com mudas sadias e, consequentemente, plantas mais vigorosas e produtivas”, destaca Alessandra Nakasone, pesquisadora da Embrapa Florestas.

A descoberta interessa especialmente à agricultura familiar, responsável pela maior parte da produção nacional. As bactérias também solubilizam nutrientes no solo, tornando-os mais disponíveis para absorção pelas raízes. Portanto pode reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos químicos e aumentar a sustentabilidade da cadeia produtiva.

Brasil lidera produção, mas desafios persistem

O Brasil colheu quase 125 mil toneladas de pimenta-do-reino em 2024, segundo o IBGE, ocupando o segundo lugar no ranking mundial de produtores. Espírito Santo e Pará concentram mais de 90% da safra nacional. O estado paraense, com 41 mil toneladas produzidas no mesmo ano, se destaca pelo perfil de agricultura familiar e pelos processos sustentáveis de produção.

Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

A pesquisa ganha ainda mais relevância com a aprovação da Lei Federal nº 15.070/2024, que trouxe mais segurança jurídica ao setor de bioinsumos. Pela nova norma, produtos biológicos desenvolvidos a partir de microrganismos como as cepas de Priestia e Lysinibacillus não se enquadram como pesticidas e têm uso agrícola liberado, desde que comprovada a segurança.

“A expectativa é que, além de melhorar o crescimento das mudas, esses bioinsumos possam atuar no controle de doenças comuns à pimenta-do-reino, como as causadas por Fusarium, e assim reduzir perdas e fortalecer a cadeia produtiva”, projeta Katia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

Os próximos passos incluem testes em áreas de produtores, com outras variedades clonais e em sistemas de cultivo como o plantio em tutor vivo de gliricídia — alternativa sustentável ao uso de estacas de madeira como suporte para o crescimento da planta.

A pesquisa reuniu pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Florestas, Embrapa Meio Ambiente e das universidades federais Unifesspa, UFLA, UFRPE e UFPA.

Fonte: Agro em Campo

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