Região Centro-Oeste, 5 de junho de 2026

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Cheque Pecuária pode evitar emissão de 500 milhões de toneladas de carbono

O governo do Pará lançou o Cheque Pecuária, programa que disponibiliza recursos financeiros para mais de 70 mil pequenos produtores e agricultores familiares do estado adotarem práticas sustentáveis na criação de gado. A iniciativa tem potencial para evitar a emissão de centenas de milhões de toneladas de gases de efeito estufa, segundo análise do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

O programa oferece até R$ 20 mil por produtor para investimentos em regularização ambiental ou implementação de boas práticas que aumentem a produtividade sem desmatamento adicional. O público-alvo concentra 3,1 milhões de cabeças de gado, equivalentes a 13,7% do rebanho paraense.

Foco nos pequenos produtores da cadeia da carne

A política pública mira especificamente agricultores familiares e produtores com até 100 cabeças de gado, considerado o elo mais frágil e vulnerável da cadeia produtiva da carne. Esse segmento atua principalmente nas fases iniciais de cria e recria dos animais, fornecendo gado para propriedades maiores que fazem interface direta com frigoríficos.

“É um segmento que, quando apresenta irregularidades socioambientais, contamina toda a cadeia de produção com desmatamento irregular”, explica Bruno Vello, coordenador de Políticas Públicas do Imaflora. “Por isso é positivo que o Cheque Pecuária focalize nas pequenas propriedades disseminadas pelo estado.”

Duas modalidades de investimento sustentável

O recurso pode ser destinado para duas finalidades específicas com impacto direto na redução do desmatamento:

  • Requalificação comercial: recuperação de áreas desmatadas sem autorização após 2008, permitindo que produtores irregulares se adequem às normas ambientais. O programa exclui propriedades com sobreposição a áreas protegidas ou com histórico de trabalho análogo à escravidão.
  • Boas práticas produtivas: implementação de técnicas como o manejo rotacionado de pastagens, que aumenta a produtividade enquanto gera benefícios ambientais. Neste sistema, o pasto é dividido em piquetes onde o gado fica concentrado de forma alternada, permitindo a regeneração adequada da pastagem.

Ganhos climáticos expressivos

Os cálculos do Imaflora consideram um cenário de adesão total ao programa, com distribuição equilibrada entre as duas modalidades. Os resultados projetados são significativos:

  • 360 mil hectares sob manejo sustentável (14% da meta do Plano ABC+ Pará)
  • 432 mil hectares isolados para recuperação ambiental (7,7% da meta do Plano de Recuperação da Vegetação Nativa)
  • 500 milhões de toneladas de carbono mantidas no solo sem migrar para a atmosfera
  • 806,4 mil toneladas de CO2 removidas anualmente
  • 48,4 mil toneladas de metano reduzidas por ano com abate precoce

O metano, gás emitido principalmente pelo arroto dos bovinos, tem poder de aquecimento global 28 vezes maior que o carbono, tornando sua redução especialmente relevante para o combate às mudanças climáticas.

Duplicação da produção sem novos desmatamentos

Com as práticas adequadas, pequenos produtores poderiam duplicar a produção pecuária sem necessidade de abrir novas áreas de pastagem. O manejo correto recupera solos degradados, produz forragem de melhor qualidade e acelera a engorda dos animais, reduzindo o tempo de permanência na propriedade.

A recuperação florestal nas áreas de requalificação comercial tem potencial de captura de 4,8 milhões de toneladas de CO2, com remoção contínua de 11,11 toneladas por hectare anualmente nas florestas secundárias que substituiriam pastagens degradadas.

Desafios e oportunidades de melhoria

Bruno Vello reconhece que o Cheque Pecuária representa um avanço importante para vencer resistências à adequação ambiental entre produtores que tradicionalmente associam regularização a custos elevados e perda de área produtiva. “Dispor de um recurso que permite se regularizar e obter ganhos de produção pode ser um incentivo decisivo para a mudança”, afirma.

O especialista aponta, no entanto, oportunidades de aprimoramento, como a inclusão de incentivos para adesão à rastreabilidade individual do rebanho. “Será preciso um monitoramento fino nos próximos anos para identificar eventuais gargalos, distorções e oportunidades de melhorar o programa”, recomenda.

Fonte: Agro em Campo

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