No interior de Goiás, a 30 quilômetros de Goiânia, uma cidade preserva mais do que arquitetura e festas típicas: preserva a alma da imigração italiana. E quem carrega esse peso, com orgulho e tacho na mão são, sobretudo, as mulheres.

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, Nova Veneza homenageia aquelas que sustentam a herança italiana com trabalho, memória e generosidade. A cidade, fundada em 1958 por descendentes de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil entre 1870 e 1920, consolidou-se como principal referência da cultura ítalo-goiana no estado. Especialmente por meio do Festival Italiano de Nova Veneza, que chega à 20ª edição em 2026.
Mas os números e as datas contam apenas parte da história. A cultura italiana em Nova Veneza sobrevive, acima de tudo, nas cozinhas, quintais e roças onde mães e avós ensinaram suas filhas a cozinhar, rezar e existir.
O matriarcado que preserva uma cultura
Desde os primeiros anos de ocupação do solo goiano, foram as mulheres que transmitiram de geração em geração os valores, os hábitos e as receitas trazidos da Itália. A proximidade com os filhos fez da mãe a principal guardiã da identidade cultural no ambiente doméstico. Na cozinha, o ensino nunca parou.
É nesse contexto que a história das irmãs Ana Maria (68), Iranilda Maria,a Nida (62) e Divina Aparecida (59) ganha significado especial. Há quase 20 anos, o trio integra a equipe de polenteiras do Festival Italiano de Nova Veneza, um grupo de quase 40 mulheres que mantém fila de espera para quem quer degustar a famosa polenta italiana do evento.
As três são netas de italianos que vieram para Goiás trabalhar em fazendas de compatriotas. O avô as chamava, coletivamente, de “as Marias”. “Quando ele chamava uma Maria, estava chamando todas nós”, lembra Dona Ana, com carinho.
Da roça ao festival: uma receita passada de mão em mão
A polenta entrou na vida das irmãs antes mesmo de saberem o que era tradição. Na infância, a mãe preparava o prato no fogão da roça. Às vezes no lanche, com leite; outras vezes no almoço, com caldo de frango e arroz. Um cruzamento espontâneo entre a culinária italiana e a goiana.
“Minha mãe foi muito importante pra mim, ensinou da polenta e muita coisa boa para nós”, diz Divina. Nida recorda que o prato era presença certa nas refeições: “Era mais comum na hora do lanche, com leite, mas ela também fazia para comer no almoço com caldo de frango e arroz.”
Ana fecha o ciclo com uma observação simples e poderosa: “Minha mãe aprendeu com a avó dela, que provavelmente também teve uma mãe como professora. Agora estamos juntas todos os anos fazendo polenta, para não deixar a cultura morrer.”
Mesmo fora do calendário do festival, as irmãs não param. Amigos, familiares e conhecidos batem à porta pedindo polenta. E elas fazem, sempre de bom grado.
Uma nova geração na cozinha
A tradição não para nas irmãs. Os netos demonstram cada vez mais interesse pelas raízes, e alguns já participam do festival. Dona Ana conta que a 19ª edição marcou a estreia do neto João Pedro na equipe. E que ele já confirmou presença na 20ª.
“Tem que pôr eles mais novos para trabalhar, para aprender. Porque nós já estamos velhas e não aguentando muita coisa”, diz Ana, entre risos.

A renovação também motiva Nida: “Os novinhos têm que aprender a fazer igual, para fazer um trem bão e gostoso, porque não pode faltar polenta pra ninguém.” Com leveza na voz, ela completa: “Eu quero continuar sendo polenteira enquanto Deus me der saúde.”
Divina ressalta o espírito coletivo que transforma o trabalho pesado em celebração: “O povo fica todo animado, é gostoso. A gente deixa de ser só uma equipe e se torna uma grande família. É cansativo, é pesado o serviço, mas pela união a gente fica mais forte.”
O Festival Italiano de Nova Veneza integra o calendário oficial de grandes eventos gastronômicos de Goiás. A 20ª edição, com o tema Brindiamo Storia e Sapori (Brindando História e Sabores!), acontece de 28 a 31 de maio de 2026, na cidade que nasceu da imigração italiana e recebe mais de 150 mil visitantes nos quatro dias de festa.
As polenteiras já aqueceram os tachos.
Fonte: Agro em Campo