Quem foi à feira livre na Bahia nas últimas semanas se deparou com uma cena inédita. A jaca, tradicional símbolo de fartura nos quintais e bancas do estado, praticamente desapareceu das prateleiras. E quando aparece, custa até R$ 70 a unidade. O que sempre foi fruta de “fundo de quintal”, muitas vezes doada entre vizinhos, agora pesa no bolso. E virou motivo de reclamação entre consumidores e feirantes.
A disparada de preços reflete uma combinação de alta procura e escassez de oferta. Inclusive nos pés domésticos, que historicamente garantiam jaca abundante em bairros e comunidades rurais. Em algumas feiras, a fruta sumiu completamente das bancas, enquanto em outras aparece em quantidades limitadas, negociada como um verdadeiro “ouro verde” pelos comerciantes.
Oferta e procura
Feirantes relatam que, para conseguir manter alguma oferta, precisam rodar o interior, negociar diretamente com donos de propriedades e disputar cada fruto com atravessadores. Segundo comerciantes ouvidos em feiras de Salvador, muitos proprietários já conhecem o novo valor de mercado e só aceitam vender a jaca por preços considerados altos, o que pressiona ainda mais o valor repassado ao consumidor final.
Levantamento em feiras da capital e do interior mostra que a jaca inteira grande, que em safras normais custava entre R$ 15 e R$ 20, hoje alcança R$ 70. O que representa alta de até 366%. A bandeja com gomos preparados, alternativa para quem não quer levar a fruta inteira, também encareceu. E passou de cerca de R$ 5 para valores entre R$ 15 e R$ 20, variação próxima de 300%. Até a chamada “jaca de quintal”, antes colhida sem grandes critérios e distribuída gratuitamente ou vendida por valores simbólicos, agora rende de R$ 30 a R$ 50 por unidade.
Motivos do preço
Além da entressafra e de fatores climáticos que reduziram a produtividade em algumas regiões produtoras da Bahia, especialistas e agentes do setor apontam outro vetor importante. A nova onda de consumo da fruta verde pela gastronomia e pela indústria de alimentos vegetais. A “carne de jaca” ganhou espaço em restaurantes, lanchonetes e produtos congelados voltados ao público vegano e flexitariano. E isso ampliou a demanda por frutos ainda verdes, antes mesmo de amadurecerem nos pés.
Com isso, parte da produção que antes abastecia o consumo tradicional da fruta madura hoje segue direto para processadoras, cozinhas profissionais e fábricas de alimentos congelados. Essa disputa entre o consumo in natura e o uso industrial ajuda a explicar por que a jaca sumiu dos quintais para virar produto raro nas feiras. Isso em um momento em que a Bahia já discute a fruta como ativo agroecológico e de geração de renda para pequenos
Pequenos proprietários que nunca enxergaram na jaqueira uma fonte relevante de renda começam a rever a estratégia. Com a valorização recente, famílias negociam a produção doméstica de jaca por valores que, até pouco tempo atrás, seriam impensáveis. O que transforma o antigo “excesso de quintal” em complemento de orçamento.
Enquanto a próxima safra não normaliza a oferta e não reduz a pressão sobre os preços, o consumidor baiano precisa escolher. Ou abre mais o bolso ou reduz o consumo de jaca, seja no doce caseiro, seja na fruta fresca. Nas feiras, a tendência imediata é a manutenção de preços altos e a venda fracionada em bandejas, estratégia que tenta conciliar o novo status de “artigo de luxo” da jaca com o poder de compra das famílias.
Fonter: Agro em Campo