Pesquisadores da Embrapa Pecuária Sul, localizada em Bagé (RS), avançaram no desenvolvimento de um projeto de melhoramento genético que pode alterar os rumos da ovinocultura de corte no Brasil. Conhecido como “ovelha do futuro”, o trabalho reúne características específicas em animais selecionados: melhor conformação e rendimento de carcaça, perda espontânea de lã, maior prolificidade e resistência à verminose.
Segundo o pesquisador José Carlos Ferrugem, a seleção assistida tem potencial para duplicar a eficácia produtiva nos rebanhos, ao equilibrar melhor a relação entre receitas e despesas. Além de ganhos econômicos, os cientistas apontam benefícios ambientais, como a redução das emissões de gases de efeito estufa e a diminuição do número de animais improdutivos nas propriedades.
A seleção genética é realizada de diferentes maneiras. A prolificidade e a conformação de carcaça são trabalhadas por meio do genótipo, já que os genes responsáveis foram identificados. No caso da perda natural de lã e da resistência a verminoses, a seleção se baseia no fenótipo, ou seja, na observação direta de indivíduos que apresentam essas características.
O projeto está em fase de repasse de reprodutores para rebanhos parceiros, em regime de comodato. Os carneiros da Embrapa são cruzados com matrizes comerciais, permitindo a análise de, pelo menos, mil descendentes em uma primeira etapa. Os produtores se comprometem a acompanhar zootecnicamente os animais, registrando dados de nascimento, peso, sexo, escore de cobertura de lã e resistência a parasitas.
Entre as características em estudo, a prolificidade tem sido objeto de atenção há mais de duas décadas. A Embrapa já dissemina genes como o Booroola, de origem australiana, além do gene Embrapa, identificado em ovinos Santa Inês, e o Vacaria, encontrado na raça Ile de France. Essas mutações permitem partos múltiplos, ampliando a oferta de cordeiros sem a necessidade de aumentar o número de matrizes.
Outra inovação é o gene Bombacha, presente em ovinos Texel, associado ao aumento do peso médio das carcaças em até 9%, além de ganho de 5% no rendimento. Essa alteração genética resulta em maior volume de cortes valorizados, como o pernil, contribuindo diretamente para a renda do produtor.
A introdução da perda espontânea de lã busca reduzir custos de mão de obra. A tosquia, cujo valor médio na região de Bagé é de R$ 12 por animal, muitas vezes supera o preço pago pela fibra no mercado. A utilização de raças deslanadas cruzadas com lanadas já apresenta resultados, embora ainda seja necessário ampliar o banco de dados genômicos para melhor compreensão dessa característica.
A resistência a verminoses também está entre as prioridades. Conforme a pesquisadora Magda Benavides, os rebanhos são avaliados por meio de exames de OPG (Ovos por Grama de fezes), que permitem identificar indivíduos naturalmente mais resistentes. O objetivo é reduzir em até 50% o uso de vermífugos, passando de seis aplicações anuais para três. Essa prática reduz custos, melhora o bem-estar animal e diminui a contaminação ambiental.
O pesquisador João Carlos de Oliveira destaca que a meta do projeto é oferecer flexibilidade ao produtor. “Queremos que cada criador possa adotar as características mais adequadas ao seu sistema de produção, desenvolvendo a sua própria ovelha do futuro”, afirma.
A expectativa é que os resultados em rebanhos parceiros validem as inovações genéticas, permitindo sua disseminação em escala comercial. O avanço poderá impactar a cadeia produtiva da carne ovina no Brasil, ao ampliar a rentabilidade e contribuir para práticas de produção mais sustentáveis.

Fonte: Agro&Prosa