A cidade de Rio Verde (GO) comemora seus 177 anos reafirmando sua identidade com um dos símbolos mais antigos e característicos de sua história: a abóbora. Em 2025, novamente, a paisagem urbana foi transformada por milhares de abóboras ornamentais distribuídas pelos principais pontos da cidade, em um movimento que une tradição, agricultura e pertencimento.
Responsável técnica pela produção das abóboras gigantes utilizadas na ornamentação pública, a engenheira agrônoma Camila Caixeta explica que o cultivo envolve planejamento, escolha varietal e manejo específico. “Neste ano, plantamos quatro variedades: Atlantic Gigante, Mamute, Moranga Exposição e Landa Seca (abóbora de pescoço). A produção foi feita em uma área de 4 hectares, resultando em cerca de 6 mil frutos, com peso médio de 50 quilos, totalizando entre 30 e 35 toneladas”, detalhou.
As abóboras utilizadas para enfeitar a cidade não são comestíveis. Segundo Camila, as variedades gigantes são modificadas geneticamente para crescerem em volume, resultando em uma polpa excessivamente fibrosa, aguada e imprópria para o consumo humano. “Elas foram desenvolvidas com foco ornamental e têm custo elevado. Um quilo de sementes pode ultrapassar R$ 5 mil, o que reflete seu valor genético e comercial”, explicou.
O manejo nutricional inclui adubação rica em boro e cálcio para reforçar a casca e aumentar o tempo de exposição. “Aplicamos também produtos com ação semelhante ao protetor solar para prolongar a durabilidade mesmo sob sol intenso”, relatou. O objetivo é garantir que as abóboras resistam por até 60 dias expostas ao ambiente urbano e ao manuseio da população.
Parte das abóboras, após as festividades, é doada a criadores para possível aproveitamento na alimentação animal. Apesar de não haver estudos específicos sobre os efeitos em suínos, Camila acredita que animais mais rústicos, criados de forma extensiva, podem consumir os frutos sem prejuízo.
A relação de Rio Verde com a abóbora remonta ao período da Guerra do Paraguai, por volta de 1870, quando soldados famintos teriam encontrado na fruta local uma alternativa alimentar. “As abóboras já cresciam naturalmente por aqui, o que indica que o solo da região sempre foi fértil”, disse Camila. Essa conexão histórica consolidou a imagem da cidade como “Rio Verde das Abóboras”, apesar de nem sempre ter sido motivo de orgulho. “Quando cheguei aqui, em 2008, o termo ‘abobrense’ ainda era visto com resistência”, lembrou.
Hoje, a população não só incorporou o símbolo, como também se reconhece nele. “É comum ver pessoas de passagem parando para tirar fotos, tocando nas abóboras para ver se são de verdade. Para quem mora aqui, pode parecer algo comum, mas para quem vem de fora é motivo de encantamento”, comentou a engenheira.
Além da produção ornamental, a abóbora tem forte presença na alimentação brasileira. De acordo com Camila, o consumo varia conforme a região. No Centro-Oeste, predominam a cabotiá e a abobrinha verde; no Nordeste, variedades como a murundum são mais comuns. A moranga também é amplamente utilizada, inclusive como matéria-prima para graxa vegetal na indústria.
A engenheira destaca ainda o valor nutricional do fruto. “A abóbora é rica em fibras, betacaroteno, vitaminas e antioxidantes. A semente, inclusive, é utilizada na indústria farmacêutica e alimentícia por suas propriedades benéficas à saúde prostática e à regulação do intestino”, observou.
O trabalho com as abóboras ornamentais integra um projeto mais amplo de valorização das hortaliças e frutas na região. Camila, que atua junto à prefeitura, também participa da implantação do “Cinturão Verde”, iniciativa que visa estimular a produção local de hortifrúti no entorno da cidade. “Nosso objetivo é garantir alimentos mais frescos, com menor custo e maior disponibilidade para a população”, afirmou.
Natural de Muzambinho (MG) e moradora de Goiás desde a infância, Camila Caixeta se diz apaixonada por Rio Verde e pelo que a abóbora representa. “Produzir essas abóboras é uma forma de celebrar a história e o potencial agrícola do município. E já estamos planejando novidades para o próximo ano, com algo especial para a Copa de 2026”, antecipou.
Com raízes fincadas no passado e olhar voltado para o futuro, Rio Verde transforma a abóbora em símbolo de identidade, prosperidade e orgulho local. No mês de agosto, ao percorrer as ruas enfeitadas, o morador é convidado a refletir sobre sua terra e sua história – e a reconhecer que, desde o início, o agro esteve presente.

Por: Divino Onaldo/Agro&Prosa